12.04.22
As linhas vermelhas de que Vladimir Putin fala, representam nada mais, nada menos, do que a antiga cortina de ferro que existiu durante o regime soviético. Países que referenciamos como sendo os países do leste europeu constituíram uma linha imaginária e uma barreira física entre a Europa ocidental e a antiga URSS.
Com a queda do império soviético que Putin considerou ser a maior tragédia geopolítica do século XX, essa linha caiu. Os povos que durante décadas viveram sob o jugo russo, que sob ameaça constante tiveram que abdicar da sua autodeterminação e que sofreram do atraso civilizacional nas suas sociedades, - viram com a queda do regime soviético a sua oportunidade de traçarem o rumo que entendessem para si próprios. Foi uma escolha que fizeram.
Sem essa linha Putin ficou incomodado, e mesmo ainda antes de assumir o poder, já na sua mente se desenhavam planos para contrapor a situação. Na sua conceção, o povo russo não devia de maneira nenhuma, sequer vislumbrar o que significava a vida no ocidente, e reforçava este conceito com uma campanha propagandista da ideia de que do ocidente provinha todo o mal, e dele chegavam todas as ameaças para a Rússia.
Isto aplicava-se ao povo russo, não a ele. Ele, tornou-se proprietário de todos os luxos que o ocidente oferecia, com inúmeros investimentos em países ocidentais. Ao que parecia, ele era imune ao “vírus ocidental”.
Para manter a chamada segurança da Federação Russa, Putin considera perfeitamente natural que haja países que tenham que obrigatoriamente prescindir da sua autodeterminação, da sua autodefesa, senão mesmo da sua soberania, para eles próprios formarem a tal linha defensiva, aquilo que os especialistas chamam de zona tampão.
Há quem defenda que quando a Ucrânia manifestou interesse em aderir à NATO, tal pretensão deveria desde logo ter sido rejeitada pela organização. Ou seja, a Ucrânia estava e pelos vistos continua a estar obrigada a ser uma zona tampão. A incontornável realpolitik dita que haja países soberanos, alguns párias, e ainda os tampões. A segurança de alguns obriga a submissão de outros.
Há quem considere normal e legítimo este imperativo, - e se para tal, for necessário invadir estados soberanos, arrasar cidades inteiras e aniquilar as populações, - existirá sempre o argumento de que os avisos sobre o ultrapassar das linhas, já tinham sido proferidos. Como quem diz: “Eu avisei! Se não obedecerem e não se sujeitarem a cumprir o papel que a vocês está destinado, - eu invado e disparo sobre todos aqueles que se cruzarem no meu caminho, até as crianças”.
Para Putin, a Ucrânia é o último trecho da linha. É estratégica e estava vulnerável. A Ucrânia reúne uma série de fatores que foram decisivos para as atitudes de Putin. Para além das considerações enviesadas e falsas que faz do povo e da cultura ucraniana, o cerne da questão prende-se com a riqueza e com a posição geopolítica do país.
A Ucrânia é um país rico em recursos naturais, grande produtor de alimentos e dispõe de portos de mar de águas temperadas. Portos que lhe permitem manter uma economia sustentada na exportação de bens, assim como garantir o estabelecimento de bases navais onde o tráfico marítimo é garantido durante todo o ano, – ao contrário do que se passa com os portos russos no polo.
Quando a adesão da Ucrânia à UE estava a ser ponderada, soaram os alarmes no Kremlin. Para a debilitada economia russa é indispensável o acesso privilegiado ao mercado ucraniano. É trágico para a Federação Russa que as relações comerciais entre Ucrânia e UE se sobreponham aos seus interesses. A adesão da Ucrânia à UE é para a Federação Russa uma ameaça e uma derrota muito superior do que a questão da adesão à NATO.
Se assim não fosse, Putin já poderia ter saído vitorioso desta “operação militar especial”, com a anuência tanto do Presidente ucraniano, como da própria NATO, no sentido de que a questão da adesão está posta de parte. Em vez disso, sai derrotado com a inevitabilidade da Ucrânia aderir à União e para agravar a sua derrota, países como a Finlândia e a Suécia aceleram desde já a sua adesão à aliança militar.
Para desgosto de uma minoria sem expressão de apoiantes do regime russo, que se estende desde políticos, militares, comentadores e especialistas em “Copy de asneiras/Paste de asneiras”, que naturalmente por ausência de argumentos, recorrem ao vulgar insulto, - esta “operação militar especial” está a ser para Vladimir Putin uma tragédia ainda maior do que a própria queda da URSS.
O que se segue será a resistência da Ucrânia, a carnificina continuada por parte do exército russo, as falsidades do Kremlin, e a azia de Putin. Tragicamente é o povo ucraniano que continuará a pagar com o seu sangue a fatura por ainda continuar ser, a última linha vermelha do Sr. Putin.